Fausto
Oliveira
Enquanto
as complexidades próprias do capitalismo do nosso tempo mostram novas facetas,
um novo conjunto de problemas sócio-econômicos e ambientais aparecem. Por isso,
as pessoas que em todo o mundo se preocupam em manter o planeta em condições
sustentáveis são confrontados com novos desafios. A cada momento surgem novos
conflitos sociais que precisam ser bem estudados. Em geral, encontram-se neles
as velhas contradições do grande capital, mas acrescidas de novos elementos. É o
caso da noção de racismo ambiental. Organizações sérias começam a perceber que
grupos etnicamente definidos que sejam vulneráveis por sua posição
sócio-econômica são os mais afetados pelos passivos ambientais deixados pelas
grandes corporações. Para dar início a um estudo do fenômeno no Brasil, vai ser
feito o 1º Seminário Brasileiro de Racismo Ambiental.
O
conceito de racismo ambiental nasce, de certa forma, em paralelo à noção de
justiça ambiental. Tânia Pacheco, consultora do Projeto Brasil Sustentável e
Democrático, do qual a FASE participa, contou ao Fase Notícias como nasceram
estas novas formas de luta. No final dos anos 70, a comunidade negra de Warren
County, pequena cidade americana do estado da Carolina do Norte, se organiza
politicamente. Eles protestam contra o despejo de resíduos tóxicos industriais
perto de suas casas.
A
situação em Warren County provocava altos riscos para a comunidade. Eles então
se revoltaram, mas foram duramente reprimidos pela polícia. No entanto, chamaram
a atenção da sociedade para um grave problema. Mais tarde, pesquisas indicaram
que 75% dos resíduos tóxicos nos Estados Unidos eram despejados nos bairros
negros de praticamente todo o país. Começava aí o movimento por justiça
ambiental. “Percebe-se que o racismo é um fator determinante, e não só contra
negros, mas também contra mexicanos, asiáticos, muçulmanos e outras minorias”,
diz Tânia.
Os
casos de racismo ambiental são, é claro, casos de injustiça ambiental com uma
forte caracterização étnica. Uma definição mais apropriada foi feita por Tânia
Pacheco: “Muitas vezes não existe a intenção de preconceito, mas se o efeito da
ação prejudica um grupo etnicamente definido e que seja frágil do ponto de vista
sócio-econômico, já é racismo ambiental”.
No
Brasil existe um exemplo pronto e acabado de racismo ambiental, a instalação da
Aracruz Celulose no Espírito Santo no final da década de 60. A entrada dessa
empresa de papel no Brasil é devastadora. Ela expulsa índios e quilombolas de
suas terras e no lugar planta uma imensa monocultura de eucalipto. Faz isso
forjando documentos através de corrupção em cartórios. Há farta documentação
comprovando os malfeitos da Aracruz, mas a pergunta que fica é: por que ela agiu
assim contra índios e quilombolas? “Não é à toa, eles são os mais frágeis, eles
não tinham capacidade de reagir contra esse tipo de ação. Quando a Aracruz chega
no Brasil, não age contra imigrantes italianos ou outro grupo mais bem
articulado. Vai atrás de índios e quilombolas”, diz Tânia.
Tal
como a luta por justiça ambiental, que começou há poucos anos no Brasil mas já
colhe frutos interessantes, o racismo ambiental começa a se articular. A
estratégias das organizações é realizar o primeiro seminário este mês. No ano
que vem, será feito um mapa do racismo ambiental no Brasil, além de materiais
pedagógicos dirigidos aos cidadãos afetados por este tipo de prática lesiva de
direitos. Em setembro de 2006, vai se realizar o segundo seminário de racismo
ambiental. “Estamos num percurso semelhante ao da justiça ambiental. Temos o
problema do racismo ambiental no Brasil e decidimos que é fundamental agir nesse
campo”, afirma Tânia Pacheco.
1º
Seminário Brasileiro Contra o Racismo Ambiental – de 28 a 30 de
novembro de 2005, no auditório do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da
UFF. Campus do Gragoatá, bloco O, sala 213, Niterói.