REVOLTA DO QUEIMADO: NEGROS EM BUSCA DE LIBERDADE
Queimado é um Distrito da Serra, Espírito Santo, Brasil.
No dia 19 de março de 1849, Queimado foi palco de uma Insurreição de negros escravos.
A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município da Serra, um dos que compõem a área periférica da Grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: Derrubar, queimar, roçar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. Hoje, no local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja de São José
As Insurreições ou revoltas de escravos eram comuns nas Vilas e
Aldeias do Espírito Santo e do Brasil. A Insurreição do Queimado foi uma revolta
que durou até a prisão de Elisiário, um dos líderes do Movimento, cinco dias
depois do início da Insurreição. A revolta começou dia 19. Chico Prego morreu
enforcado na Serra Sede. João da Viúva Monteiro, morreu enforcado no Distrito de
Queimado. Elisiário fugiu da cadeia, graças a um milagre e formou um quilombo na
região depois do Morro do Mestre Álvaro e do Monte do Mouxuara, em
Cariacica.
Recentemente num discurso proferido na Assembléia Legislativa
Estadual, uma professora da UFES - Universidade Federal do Espírito Santo
defendeu a tese de que não se deve denominar a Revolta do Queimado como
Insurreição.
Informou que o termo Insurreição foi usado pelos Senhores
para menosprezar o ato de bravura e combativo dos negros. Também defendeu a tese
de que não se deve creditar ao frei Gregório Maria de Bene, a idéia inicial da
luta pela liberdade, que segundo a mesma, surgiu através dos próprios negros,
através da figura de Eliziário.
Com relação a tais colocações, o historiador
e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Clério José
Borges, nada tem contra. Segundo Clério Borges, "Eliziário teve grande
importância no Movimento. Era escravo de uma família que lhe ensinou o básico
para sua formação. Era negro caseiro e não trabalhava no campo, assimilando e
aprendendo com o seu Senhor. É certo que o frei Gregório não gostava da
escravidão. Era de origem européia e os Europeus não gostavam da Escravidão.
Frei Gregório era Italiano. Deve-se sim, creditar a frei Gregório, deixando de
lado as paixões, o fato de ter iniciado, com Eliziário, Chico Prego e João
Monteiro, (João da Viúva Monteiro) as primeiras conversas sobre a Liberdade dos
Escravos. Mas, o movimento pregado por frei Gregório seria por vias pacíficas.
Ele iria até a Imperatriz defender a liberdade dos negros escravos. São fatos
históricos. Estão registrados na obra de Afonso Cláudio que fez um livro
minucioso sobre o assunto."
Clério José Borges destaca ainda o fato de que,
"Os negros invadiram a Igreja gritando: Queremos alforria, queremos
liberdade. os negros estavam armados no momento da invasão da Igreja.
Frei Gregório defendia um movimento pela liberdade, mas sem armas. Queria
liderar, junto com os negros, um movimento pacífico. A impaciência, gerada
talvez pela opressão e castigos que recebiam, levou os negros a uma atitude
extrema de se armarem. De armas em punho, já não mais estavam reivindicando por
vias pacíficas. Estavam indo contra as Leis vigentes. Cerca de 30 anos depois
ocorreria a "Abolição da Escravatura". Com a abolição os negros foram libertados
por vias pacíficas. Não foram libertados através de Insurreições ou Revoltas.
Foram libertados dentro da Lei. A "Revolta do Queimado" foi uma marco da
negritude em busca da liberade,fato que ninguém pode negar, todavia foi feita ao
arrepio da lei, ou seja, contra as leis vigentes no Brasil da época, pois foi
feita com armas. Sem contar, o prejuízo humano das vidas que foram
sacrificadas."
Confira o relato histórico de como foi a Revolta do Queimado, baseado no livro de Clério José Borges, "História da Serra". O livro possui 242 páginas e foi lançado em Setembro de 2003. Está disponível para a compra nas Livrarias Logus, em Vitória e Livraria "Doce Saber", no Shopping Laranjeiras, em Parque Residencial Laranjeiras, Serra, ES. (AQUI)
Confira artigo sobre a Revolta do
Queimado, do Professor José Roberto Pinto de Góes. No texto várias explicações e
detalhes sobre a Revolta do Queimado: "Era escandalosa a desenvoltura dos
pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o
bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas
que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos
escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de
atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome dado
ao chicote)." (AQUI)
O Jornal "Correio da Victória", de março de 1849, publica uma série de reportagens sobre a Revolta do Queimado. O material foi pesquisado e apresentado numa exposição em 1999, nos festejos comemorativos aos 150 anos da Revolta. Conheça material coletado por estagiários e pesquisadores do Arquivo Público Estadual. [AQUI]
| Fotos da Filme "Insurreição"
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