O Antigo Egito sob Domínio Negro |
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( extraido do texto
de Danilo
José Figueiredo, em "Egito: o Berço do Ideal Imperial
"
)
disponível integralmente em : http://www.klepsidra.net/klepsidra16/egito-11.htm
O Domínio Núbio:
Historicamente a Núbia sempre foi uma região dominada pelo Egito. Desde o Antigo Império os Faraós Egípcios faziam incursões de saque e até mesmo de conquista dentro do território Núbio. O ouro da Núbia foi o principal financiador da política Imperial do Egito. Os mercenários Núbios por muitos séculos serviram como guardas pessoais e mesmo como buchas de canhão dos exércitos Faraônicos. Na Núbia foram construídas fortalezas que mais lembram verdadeiros castelos medievais (inclusive, tinham a mesma função que, na Idade Média, os castelos tiveram em regiões como o País de Gales, por exemplo, ou seja, manter a região sob vigilância constantes com contingentes armados prontos para uma intervenção), lá também foi construída a maior maravilha do governo de Ramsés II, Abu Simbel. Em Napata, na Núbia, residia um Vice-Rei Egípcio; com efeito, se o Egito dominou diretamente alguma região, esta região foi a Núbia. Todas as demais regiões que um dia compuseram o Império Egípcio eram submetidas a domínios indiretos, mantinham seus governantes e, às vezes não possuíam nem mesmo guarnições Egípcias permanentes, somente a certeza de que, caso se rebelassem, seriam massacradas pelas tropas do Faraó. Na Núbia tudo era diferente...
Ruínas
de Napata
Antes do estabelecimento de um Vice-Rei Egípcio em Napata, os príncipes Núbios foram os primeiros a freqüentar a Kap, em Tebas. Deveriam aprender a religião e os costumes Egípcios, pois, pensavam os Egípcios, se gostassem da cultura Egípcia, não veriam problemas em serem por ela dominados.
Realmente a estratégia dos Faraós deu particularmente certo
na Núbia. A região não se diferenciava em nada do Egito em termos de cultura.
Possivelmente, como já foi mencionado, a única diferença entre Egípcios
e Núbios (diferença que (uma vez tendo existido) talvez tenha sido determinante)
era a cor de suas peles. Os Núbios quase que sem dúvidas eram negros e,
sendo assim, devem ter sido vistos como inferiores pelos Egípcios (que,
aliás, se viam como superiores a todos os estrangeiros), apesar de habitarem,
como eles, as margens do Nilo.
Após tantos revezes na política interna e a quase destruição
de sua política externa, o Egito perdeu definitivamente o controle sobre
a Núbia (este nunca mais seria recuperado, exceto no século XX d.C., visto
que hoje aquilo que os Egípcios chamavam de Alta Núbia, ou Wawat, faz parte
do território do Egito).
Assistindo de longe à destruição, por disputas internas,
da cultura que tanto louvavam, os Núbios não resistiram e, por volta de
750, começaram a investir contra o Egito.
Começaram por submeter o Alto Egito, que estava mais vulnerável
pela falta de um governo central (visto que desde a instauração do príncipe
de Bubastis como Sumo Sacerdote de Amon, a XXI Dinastia de Tebas já não
mais existia e o Clero de Amon já não dominava muitas regiões além de Tebas).
Essa região caiu facilmente sob o jugo Núbio.
Entre 730 e 709, os Núbios atacaram o Delta, mas só lograram
fazer pequenas escaramuças, sem abalar o equilíbrio de poder que se estabelecera
entre as três Dinastias (XXII, XXIII e XXIV) daquela região.
Numa época em que a Fé andava em baixa num Egito dividido,
os Núbios trouxeram de volta o fervor religioso e o tradicionalismo. Se bem
que um tradicionalismo revestido de tradições Núbias.
É notório, no entanto, que Piankhi, Rei de Napata e idealizador
da invasão ao Egito não obteve todo o sucesso que logrou obter apenas por
seu fervor religioso. As táticas de guerra Núbias eram algo ainda nunca
visto na região. Primeiramente, eles possuíam um exército nacional forjado
em cima de laços de aliança (muito semelhantes aos laços de vassalagem
Medievais) entre os chefes, sendo assim, não dependiam de mercenários pagos
que, no fundo, são muito pouco confiáveis. Em segundo lugar, mas principalmente,
os Núbios foram s primeiros a utilizar a cavalaria em larga escala. Ao contrário
dos povos do Crescente Fértil que apenas utilizavam bigas, eles de fato
montavam nos cavalos. Não temos condições de saber se utilizavam ou não
algo semelhante ao estribo, mas é mais provável que não, caso contrário
essa técnica teria se disseminado muito antes do que o fez. Apesar disso,
podemos perceber que tropas montadas a cavalo eram muito mais rápidas e
ágeis até mesmo do que as bigas, por isso os Núbios parecem ter tido uma
vantagem determinante no campo de batalha. Uma especulação que parece verossímil
trata da qualidade das armas dos Núbios. Com efeito, existem teorias que
fazem menção a uma fonte de disseminação do ferro no Sudão ocidental. Se
isso proceder, então é possível que os Núbios possuíssem mais uma vantagem
determinante: armas de ferro.
O que podemos saber realmente é como se deu a conquista
do Egito, isso graças a uma bela estela erigida por Piankhi, em comemoração
a essa conquista. Acredita-se que este indivíduo se tenha feito coroar Faraó
valendo-se de uma possível descendência em relação a Herihor, fundador
da XXI Dinastia de Tebas. Essa hipótese, contudo, é muito fraca, na medida
em que se baseia apenas no fato do filho daquele Faraó ter se chamado Piankhi
também.
O amor desses Núbios Kushitas (veremos o significado do
termo mais adiante) por seus cavalos era tanto que há relatos de uma grande
bronca de Piankhi no Nomarca de Hermópolis, pois, logo que ele acabara de
tomar a cidade, ao visitar os estábulos constatou que os cavalos mal tinham
o que comer, sendo assim, relatou:
“Por minha vida! Por meu amor a Ra! Como minhas narinas estão rejuvenescidas de vida! Ver cavalos tão famintos aflige meu coração mais do que todo o mal que, em sua perversidade, fizestes.”
Ao tomar o Egito, os Núbios estabeleceram-se em Mêmfis e, em seus enterramentos (em Napata), fizeram-se sepultar com seus cavalos para que estes os servissem por toda a eternidade. Podemos imaginar facilmente que a visão desses Núbios sempre em seus cavalos pode facilmente ter gerado no imaginário mítico Egípcio uma figura que depois teria alcançado a Grécia, tornando-se parte da mitologia daquele povo: O Centauro.
O que mais impressiona no período da dominação Núbia não
é, contudo, a forma como ela aconteceu, nem tão pouco, as tecnologias bélicas
empregadas pelos conquistadores. O que mais impressiona é realmente o saber
Histórico deles, coisa que parece tê-los motivado em suas campanhas.
Para se ter uma idéia, Piankhi, ao tomar o Egito, restabeleceu
o poder do Faraó tal como o fora no Antigo Império. Dessa forma, ele justificou
sua conquista como o extermínio daqueles sem Fé. Dizia-se um Deus Vivo,
como um Faraó deveria ser, e todos os que se opunham a ele estavam se opondo
à Maat. Profundo conhecedor dos hieróglifos, ele restaurou seu uso que já
se encontrava praticamente perdido; com efeito, suas correspondências e
registros Régios eram feitos em hieróglifos.
Também a construção de pirâmides, que já não ocorria há
quase 1500 anos, voltou a ocorrer, em tamanho reduzido, é verdade, além disso,
em Napata, não no Egito, mas, ainda assim, pirâmides.
O costume de que o Faraó era o único Sacerdote verdadeiro
também foi restaurado. Desde os áureos tempos da IV Dinastia o Faraó já não
tomava para si as funções de único Sacerdote. Sempre que estava presente
num templo, Piankhi se encerrava sozinho na câmara escura e realizava as
cerimônias de culto ao Deus.
No trato pessoal o Faraó da Núbia também resgatou velhos
costumes: proibiu o peixe e o porco entre aqueles que freqüentavam sua presença
e/ou o palácio. Ao tomar Mênfis, visando restaurar a integridade do culto
de Ptah, há muito renegada, entregou seu templo a lustrações sagradas. Buscou
restaurar os credos originais e a força da diversidade politeísta, o que
não o impediu de também fortalecer o Clero de Amon, seu Deus preferido.
Em Tebas, sua principal ação foi a recriação do cargo de
Adoradora Divina de Amon, um cargo restrito a mulheres que há muito havia
sido extinto. Somente princesas de sangue Real podiam ocupar esse cargo
e, com sua restauração ele se tornou uma espécie de contraparte feminina
do poder do Sumo Sacerdote de Amon.
O controle de Piankhi sobre o Delta nunca foi efetivo,
isso porque o terreno pantanoso dificultava o deslocamento por terra e os
vários braços do Nilo tornavam o deslocamento por água muito demorado.
Quando morreu, Piankhi foi sucedido por seu filho, Shabaka
e este, por Shebtiku, que, por sua vez, foi sucedido por Taharqa e esta,
por Tanutamon.
No total, os Núbios governaram o Egito por 94 anos, entre
750 e 656. Porém, a expansão Assíria não pôde ser detida por muito tempo.
Depois da invasão Assíria (que será referida mais adiante), os governantes
Núbios se retiraram de volta para Napata de onde organizaram um novo Reino:
Meroë.
O Reino de Meroë:
Os Egípcios nunca ultrapassaram a quinta catarata do Nilo, aliás, Napata, a cidade fortaleza fundada para controlar a Núbia e ser a residência do Vice-Rei da região ficava justamente entre a quarta e a quinta cataratas. A região conhecida pelos Egípcios como Núbia estava, assim, como seu vizinho do norte, dividida em duas partes: Alta Núbia (ao norte) e Baixa Núbia (ao sul). Os nomes dessas duas regiões, no entanto, eram mais usualmente Wawat e Kush, respectivamente.
É possível que exista certa influência Hebraica na nomenclatura
de ao menos uma dessas regiões, visto que, segundo a Dr. Vera Lúcia Amaral
Ferlini, do departamento de História da USP, Kush, em Hebreu antigo significava
negro e essa região corresponde justamente à Baixa Núbia, ou seja, a região
da Núbia antiga que hoje pertence ao Sudão e que, inegavelmente está inserida
dentre do contexto étnico da África negra.
Segundo o Torah e também o Velho Testamento, mais precisamente
o Pentateuco, conjunto dos cinco primeiros livros do Velho Testamento que
também compõem o Torah; Kush era filho de Noé e, durante o dilúvio, enquanto
todos navegavam, certa vez Noé se embriagou e deitou-se nu.
Ao observar o pai despido, Kush zombou dele e chamou seus
irmãos para também fazerem-no. Porém, ao chegarem os irmãos se ofenderam
com a conduta de Kush e, ao invés de também zombarem de Noé, cobriram-no.
Quando o escolhido de Deus para salvar a humanidade acordou,
seus outros filhos contaram-no o que Kush havia feito. Irado ele se dirigiu
ao filho e o amaldiçoou: “Tu e teus filhos serão escravos dos escravos dos
filhos de seus irmãos!”.
Ainda segundo esta fonte. Após as águas terem baixado,
aos antediluvianos coube repovoar o mundo. A cada qual coube um grupo de
animais e todos se dividiram. Kush rumou para a África e, dessa forma, seus
descendentes se tornaram os negros: eternos fadados à escravidão. Essa lenda
Bíblica serviu de legitimação à escravidão negra na América e é possível
que tenha se originado quando os Hebreus observaram a condição de escravos
dos indivíduos oriundos da Baixa Núbia no Egito. De qualquer maneira, essa
é uma boa pista para que se pense numa possível solução para o problema
étnico do Egito Antigo.
Quanto ao Reino de Meroë, infelizmente não disponho de
fontes fidedignas a seu respeito. Tenho o maior interesse em estuda-lo
o mais breve possível, mas ainda não o é. Só posso dizer que se centrava
na região além da quarta catarata. Sua capital original foi Napata, mas
depois ela foi transferida para Meroë, donde o nome do Reino, entre a quinta
e a sexta cataratas, um lugar onde os Egípcios jamais pisaram. Nesse Reino,
ao que tudo indica, tradições tribais Centro-Africanas se fundiram com tradições
Egípcias e é provável que tenha havia a construção de pirâmides de madeira,
pela falta das pedras que mais ao norte eram abundantes. Se o Reino do Punt
era mesmo a Somália, ou mesmo a Abissínia (Etiópia), então é provável que
tenha tido contatos com Meroë e que, dessa forma, esse Reino tenha influenciado
várias civilizações Africanas. Talvez, quiçá seja uma raiz minimamente
Histórica para uma possível existência do lendário Reino de Prestes João.