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O ENSINO DA HISTÓRIA AFRICANA
1 - INTRODUÇÃO
A primeira vez que nos
preocupamos objetivamente com o aprendizado e o ensino de história africana foi
em 1976 quando da organização da "Escola do Camisa" em São Paulo. Éramos
militantes dos movimentos negros e resolvemos por as críticas ao sistema
educacionais brasileiros numa realização prática, através de um curso de
preparação para exames supletivos realizado nas dependências de Escola de Samba
Camisa Verde e Branco. Uma das escolas de samba tradicional de São Paulo e que
tinha na sua presidência um grupo de "negros velhos" lutadores partidários de
projetos que propiciassem condições de vida sadia e cultura à população negra.
Nestes cursos introduzimos pela primeira vez uma seção semanal de História
Africana que ficou a cargo do Osvaldo Rafael. Eu lecionava a história do Brasil
e me pus também a aprender História Africana estudando o material disponível que
era pouco e precário na época. A partir de 1990 retomei a questão do ensino
de história africana, agora com melhor informação e reflexão, dentro de uma
perspectiva de formação introdutória à educadores da rede pública, militantes
dos movimentos negros e lideranças sindicais. Tendo ensinado por estes anos a
Introdução à História Africana, para diversas audiências, com diversas
formações, em diversos contextos e regiões e diversos níveis de escolaridade,
como para os pós-graduandos em educação ou para participantes de comunidades de
bairros periféricos, no momento de redigir esta nota realizei uma reflexão sobre
os pontos comuns destas experiências. Conclui que duas atitudes tinham sido
comuns a todos os grupos, uma delas era a perplexidade diante da riqueza
impensável na sociedade brasileira sobre as sociedades africanas, a outra era a
resistência. A resistência em admitir a possibilidade de uma nova verdade, de
uma história, como outras histórias, dos africanos e das populações negras
através do mundo. Neste curto texto procuro reunir as principais dificuldades
encontradas no processo de ensino e aprendizado da história Africana.
2 -
OS LIMITES DA IMAGINAÇÃO
Aprender história é um exercício por vezes
difícil, onde contracenam o real e o imaginário. Precisa-se da imaginação que
transcenda os fatos e reproduza a complexidade das atividades humanas como um
filme explicativo, questionador, repleto de conceitos, propósitos e dúvidas.
Sobretudo porque a dúvida é o elemento principal na composição do filme da
história. A dúvida e não a descrença. Mas trabalhos de ensino de História
Africana aparecem inicialmente como uma sistemática descrença nas possibilidades
civilizatórias. Acompanhando a descrença um bloqueio à imaginação. O
principal problema encontrado no processo de ensino e aprendizado da História
Africana não é relativo à história e à sua complexidade, mas é com relação aos
preconceitos adquiridos num processo de informação desinformada sobre a África.
Estas informações de caráter racistas, produtoras de um imaginário pobre e
preconceituoso, brutalmente erradas, extremamente alienantes e fortemente
restritivas. Seu efeito é tão forte que as pessoas quando colocadas em frente a
uma nova informação sobre a África tem dificuldade em articular novos
raciocínios sobre a história deste continente, sobretudo de imaginar diferente
do raciocínio habitual. A imagem do Africano na nossa sociedade é a do
selvagem acorrentado à miséria. Imagem construída pela insistência e
persistência das representações africanas como a terra dos macacos, dos leões,
dos homens nus e dos escravos. Quanto aos povos asiáticos e europeus as
platéias imaginam, castelos, guerreiros e contextos históricos diversos. Quanto
à História Africana só imaginam selva, selva, selva, deserto, deserto e tribos
selvagens perdidas nas selvas. Há um bloqueio sistemático em pensar diferente
das caricaturas presentes no imaginário social brasileiro. As informações
novas geram uma constante desconfiança, tendo ocorrido mais de uma vez a
pergunta, se eram sobre a África aquelas informações. Quando se desenvolvem
tópicos sobre a indústria têxtil africana e as exportações de tecido para a
Europa no passado, ou mesmo a informação de que a África precedeu a Europa no
uso de roupas, há uma inquietação, um conflito emocional onde a dúvida é
persistente. O elemento básico para Introdução à História Africana não está
na história africana e sim na desconstrução e eliminação de alguns elementos
básicos das ideologias racistas brasileiras. O cotidiano brasileiro é povoado
de símbolos de negros selvagens e escravos amarrados, que processam e
administram o escravismo mental e realizam a tarefa de feitores invisíveis a
chicotear a menor rebeldia o imaginar diferente. Acredito serem cinco os
pontos importantes a serem desconstruídos na imaginação dos brasileiros sobre a
África. 1. A África não é uma selva tropical. 2. A África não é mais
distante que os outros continentes. 3. As populações Africanas não são
isoladas e perdidos na selva. 4. O europeu não chegou um dia na África
trazendo civilização. 5. A África tem história e também tinha
escrita. Existem outros tópicos, apenas estou citando os cincos mais
persistentes, os outros vão no sentido de "burrice do africano". O africano é
tido sempre como o diferente com relação aos povos de outros continentes. Os
iguais são os europeus e os asiáticos. Diferente no sentido não da diversidade
humana, mas de uma hierarquia de valores, onde, uns são certos e os outros
errados. Os iguais são certos e os diferentes errados, estes são os conteúdos
das idéias que estão no subconsciente que instrui os raciocínios. Nos cursos
seguidamente aparecem frase tais como: "o que destrói a África é que eles brigam
muito entre si". "Eles não são unidos como os europeus". Ou então surge a
pergunta "de onde vem o negro", com ênfase numa possível origem biológica
diferente do branco quanto às possibilidades intelectuais.
3 - A ÁFRICA É
DIVERSA
Muitas vezes, precedendo uma exposição sobre a História Africana
utiliza-se o recurso de apresentar cartões postais sobre Abdjan, Dakar, Cidade
do Cabo, Lagos e outras capitais africanas informalmente. Quanto a questão se
são cidades africanas as expressões incrédulas não escondem um pequeno espanto.
Alguns retomam as fotos. A mesmo exercício também pode ser realizado com
fotos de vestuários e de mercados africanos, onde aparece uma diversidade de
trajes femininos e masculinos. A terceira surpresa ocorre quando da
apresentação de uma gravura do Rei Monomotapa de 1531. Rei e Rainhas são do
universo do imaginário sobre a Europa e não abrange a África. Faces da admiração
abre ensejo para discussão sobre os conceitos e preconceitos em relação às
civilizações africanas. A existência de um rei implica uma organização social,
um território, uma nação e, através da discussão destes desdobramentos facilita
uma desconstrução dos estereótipos da África Selvagem. As florestas africanas
perfazem apenas 1/8 do território continental. São necessárias a introdução de
informações geográficas para terem a idéia da possibilidade de existência de
vida organizada, cidades com infra-estruturas urbanas desenvolvidas no passado
africano. A percepção errônea de que a África tem apenas paisagens de
florestas tropicais leva a imaginar o africano sempre vivendo em choupanas na
floresta. Não sobra lugar para cidades imensas ou para plantações, atividades
econômicas, agrícolas e pecuárias. Uma vez que a imagem africana é construída
também pelo cinema, é preciso avisar aos incautos que muito dos filmes do gênero
Tarzan são rodados nos Estados Unidos em cenários da Flórida. Em contribuição
a imagens construídas de impossibilidades civilizatórias africanas, estas estão
sempre ao lado das florestas tropicais e do deserto, também tido como estéril e
inabitável. Além disto, o deserto é marcado como divisor de duas hipotéticas
Áfricas, uma negra e a outra, por oposição, seria branca. Aqui o exercício de
quebra de pressupostos errôneos é um pouco mais difícil. Como recurso didático
podemos utilizar as rotas de caravanas comerciais que a séculos fazem percurso
através das regiões do Saara. Estas caravanas demonstram a possibilidade de vida
cotidiana na região do deserto e da instalação e desenvolvimento de estados
nacionais. Outra informação útil é de que o deserto vem progressivamente
aumentando, ano a ano, e de que áreas desérticas no presente não o eram no
passado. Mapas antigos onde apresentam o Lago do Chade em proporções muito
maiores no passado ajudam o raciocínio ou então às explorações arqueológicas
onde cidades são desenterradas de onde hoje existe apenas areia. O recurso
às caravanas e aos sítios arqueológicos levam à demonstração de uma integração
dos espaços econômicos no deserto do Saara e nas suas periferias justificando
uma comunidade histórica comum, o que elimina a possibilidade do artifício de
duas Áfricas. Mesmo a diversidade da população não é suficiente para pensarmos
em duas Áfricas, uma no Norte e outra no Sul do Saara. Porque não se pensa em
Ásias uma vez que existe diferença de população entre a Índia e a China? Porque
não se pensa também em duas Europas dadas as diversidades populacionais. O que
marca a territorialidade é sobretudo a integração histórica. Portanto,
utilizando o mesmo método existe apenas uma África, com diversas populações e
diversas culturas. Outras imagens surpresas são das populações do Quênia ou
do Zimbabue utilizando roupas de lã. A idéia de floresta tropical elimina a da
diversidade climática criada pela topografia e pela latitude. Transmite errônea
impressão que não existem regiões com neve nas montanhas africanas. Que os
climas do continente não sofrem alternativas de climas quentes, temperados e
frios, variando com as estações do ano e as regiões.
4 - SEMPRE EXISTE
UMA INTEGRAÇÃO TERRITORIAL AFRICANA
A fantasia ou pesadelo da tribo dos
homens nus leva pensarmos e África como um conjunto de povos dispersos na mata e
incomunicáveis uns com os outros. Esta imagem é reforçada pela insistência numa
diversidade lingüistica africana e nas hipóteses improváveis da história
brasileira de que os escravisadores colocavam africanos de origens diferentes na
mesma fazenda e nas moradias para evitar a comunicação entre eles e, portanto,
evitar a possibilidade de rebeliões. A começar pela História do Brasil, onde
as rebeliões sempre existiram, o que é possível imaginar que a língua não é
empecilho. Ainda mais, seria impossível organizar um sistema de produção onde os
trabalhadores não conseguissem se comunicar. Indo à realidade africana
lingüistica, temos que notar que todas as línguas provem de apenas quatro
matrizes lingüisticas. Que no continente africano, hoje como no passado,
diversas línguas são compreendidas por povos diversos. Ainda mais que, existem
línguas como o Árabe e o Suarili que são faladas em quase todo o continente. Não
existem para o africano barreiras lingüísticas, de comunicação entre os diversos
povos e nações. As dificuldades ou facilidades lingüísticas na África não são
diferentes das Européias ou Asiáticas. Nessa discussão de línguas, de
facilidades e dificuldades aparece freqüentemente a intervenção de um outro
possível fator explicativo das supostas dificuldades lingüisticas da integração
na África e de facilidade na Europa que seria a escrita. A observação trás a
cena dois pressupostos falaciosos, o primeiro é que os africanos antes de 1400
não conheciam a escrita e outro de que o europeu sempre a conheceu. Começamos
pelo europeu, cabe perguntarmos desde quando e como adquiriram a escrita, também
desde quando esta se popularizou. Poucas pessoas na nossa cultura têm
presente a idéia que o europeu adquiriu a escrita de outros povos e que somente
com a expansão do Império Romano esta escrita chega ao conjunto do território
europeu. Poucos são os textos que informam do estado de atraso e ignorância que
viveu a Europa até a Idade Média, por volta de 1200 e, que a saída para o
desenvolvimento vem através das cruzadas indo para territórios da África e da
Ásia. Como exemplo temos a medicina européia, resultado da tradução de manuais
Árabes. Mesmo com a Matemática, a Física, a Química e a própria escrita
européias, são resultados do contato europeu com estes povos. Sobre a África
costuma-se dizer que é um continente oral, sem entendermos o que representa esta
oralidade como método de transmissão do conhecimento na África. A oralidade não
é a ausência da escrita. A escrita faz parte das culturas africanas desde as
civilizações egípcias. Pelo menos são quatro os Alfabetos desenvolvidos no
conjunto das civilizações africanas, em áreas diversas do continente. Ademais,
anterior a 1500 a África processou uma imensa utilização do Árabe como língua
comercial e cultural, dado pela expansão do Islamismo em 2/3 do continente a
partir dos anos 600, sendo comum a existência de documentos em Árabe para a
história africana. As escritas em Árabe chegam ao Brasil, onde os escravizados
participantes da revolta dos males, em 1831, escrevem panfletos e se comunicam
em Árabe. É necessário mais cuidado nas comparações entre a história africana
e a européia. Faz-se necessário maior informação sobre uma e outra para
escaparmos das idealizações e reduções impostas pelos processos de dominação
racistas. Nesta informação a Europa aparece como fonte do saber e a África como
fonte de ignorância. Um exame da profusão de línguas e povos na Europa,
tomando o período anterior a constituição dos grandes estados nacionais,
verificamos que não é muito diferente da situação africana. Mesma na atualidade
temos que dizer por exemplo que a língua francesa não é a única falada em todo
território francês, território este que em quilômetros quadrado não é maior que
os estados africanos. O mesmo se dá com a Espanha e a língua espanhola, o
Britânicos e o Inglês, ou alemão e Alemanha. As idéias de uniformidade e coesão
apresentadas no Brasil sobre os europeus não têm correspondido com a realidade.
São idéias trabalhadas ideologicamente como sinônimos de organização e a
organização como signo do processo. Na cultura brasileira a África é sempre
tratada como distante. A idéia de distante reflete outro estereotipo que é a
idéia da falta de integração da África aos espaços econômicos mundiais.
Significa que ficou isolada e atrasada até o dia que os europeus correram ao seu
socorro. Na versão brasileira a África é ausente das integrações internas e
externas ao continente. Este isolamento é tido como quebrado com a chegada do
Português no Reino do Congo em 1484. Nos é dado a idéia que o português não
conhecia a África anterior a esta data e que os africanos não conheciam a
Europa. A integração econômica milenar da África, interna e externa pode ser
trabalhada pelas rotas comerciais das caravanas comerciais que cruzam todo
continente e se estendem pela Europa e Ásia chegando a Índia e China. Um bom
material de argumentação, são as gravuras de africanos nas cortes chinesas
presenteando com produtos africanos e animais como a girafa. Estas gravuras
datam de 1383. Uma discussão mais profunda da integração africana à economia
mundial pode ser tida pelas viagens de navegadores e africanos à América em
períodos anteriores a Colombo. Viagens realizadas periodicamente e em períodos
históricos amplos como são as trocas entre as civilizações da América Central e
os Egípcios, ou entre Malianos e Caribenhos. A chegada dos europeus através
dos portugueses na África não é acompanhada de um raciocínio sobre a presença
negra na Europa e da presença européia na África anterior à esta época. Pouco se
tem conhecimento da existência das Cruzadas, negros combatendo ao lado de
Cruzadas de brancos. São raros os que examinam as origens das imagens de santos
negros nas igrejas católicas européias ou de imagens negras nas catedrais alemãs
da Idade Média. Estas imagens atestam em profundo contato entre africanos e
europeus no século 13. Ademais, as figuras negras aparecem com a mesma dignidade
e importância das figuras brancas. A expansão incrível do Império Romano não é
intermediada no imaginário brasileiro como a possibilidade de trocas existentes
entre africanos e europeus anteriores a 1484, ou seja, no início da expansão
comercial portuguesa. A idéia de isolamento africano é fundamental na
manipulação dos mitos sobre a raça e miscigenação racial ocorridas no Brasil.
Fala-se dessas categorias partindo de uma idéia absurda de que africanos,
europeus e asiáticos não haviam realizado imensa troca de experiências genéticas
anterior a colonização brasileira. Como se não tivesse havido intensa
miscegenação anterior a colonização do Brasil. Isto leva a pensar na fixação
destrutiva e racista de raças puras e impuras. O método de isolamento africano é
estrutural ao pensamento racista brasileiro. Ele faz questão de desconhecer a
espécie humana como um híbrido resultante de processos milenares de troca de
população. Daí elege o Brasil e unicamente o Brasil como país de existência de
misturas de populações diversas. Somos incapazes de saber que nenhum europeu,
loiro ou não, pode reivindicar a ausência do gen. africano na sua história
genética. Portanto, as misturas populacionais, as misturas étnicas são próprias
da espécie humana e não ocorrem pela "grandeza de espírito do português pelo
Brasil".
5 - JUSTIFICATIVAS PARA O ENSINO DE HISTÓRIA
AFRICANA
Caso o Brasil fosse um país sem nenhuma imigração africana de
importância, não seria surpreendente que os currículos escolares dispensassem
estes conteúdos. Mesmo assim, por razões da história da humanidade, ou mesmo da
história econômica do capitalismo, seria indispensável um conhecimento da
história africana. Surpreendente e impensável é um país que nos seus pelos menos
últimos quatro séculos teve não somente a imigração africana maciça como também
tem a maioria da sua população descendente de africanos, não ter história
africana nos currículos escolares. Pela cultura e pelas construções de
identidades dos Afro-descendentes e em nome das pluralidades culturais são
justificáveis a presença da história africana como fundamento do conhecimento da
história nacional. No entanto, devido o país ter sido colonizado por
portugueses provenientes da Península Ibérica e, visto que o desenvolvimento
diferenciado de Portugal e Espanha, com relação ao restante da Europa, no século
14 e 15, se deve em parte pela influência africana nesta região. Tenho de
lembrar que Portugal e Espanha foram colônias dos Mouros por 700 anos. Que estes
Mouros são fusão de Africanos Islamisados e Árabes. Temos que rever que os
conhecimentos técnicos e científicos neste período são mais avançados na África
e no Mundo Árabe do que na Europa, para compreendermos a mecânica dos processos
de desenvolvimento de Portugal e Espanha com relação ao restante da
Europa. Os portugueses e espanhóis, também, após a expulsão dos Mouros da
Península Ibérica, recebem ainda importantes contigentes de Imigração Africana.
Importantes técnicos e artesãos nas cortes portuguesas durante um grande período
são africanos. Temos, também, as rotas comerciais que fluem da África para a
Europa passando por Portugal. Em suma, para um conhecimento aprofundado do
colonizador português, é imprescindível uma base da historiografia africana. O
próprio nome de Brasil não teria uma explicação tão pueril como a que é
apresentado nas nossas escolas, relacionando erradamente com a madeira de cor
vermelha abundante no passado na nossa faixa litorânea. O nome mais
provavelmente vem da conexão Africano-Árabe e do conhecimento que estes povos
tinham sobre a existência de terras americanas. Conhecimento obtido muito antes
das viagens de Colombo e Cabral às Américas. O argumento principal para o
ensino da História Africana esta no fato da impossibilidade de uma boa
compreensão da história brasileira sem o conhecimento das histórias dos atores
africanos, indígenas e europeus. As relações trabalho-capital, realizadas no
escravismo brasileiro são antes de mais nada, relações entre africanos e
europeus. As tecnologias utilizadas nos ciclos econômicos brasileiros são de
origem africana e, as formas de produção são altamente dependentes do tipo de
mão da obra e dos estágios civilizatórias das nações africanas. A história
política brasileira inicialmente é do escravismo e da alternativa política dos
Quilombos, este último, produto das formas organizativas africanas reelaboradas
para a realidade brasileira. A partir de 1500, o entendimento da história
econômica, política e cultural do Brasil, só é possível através do conhecimento
da história e da cultura africana. Sem estes elementos se constrói uma história
parcial, distorcida e promotora de racismos. A razão única que justifica a
exclusão da História Africana nos diversos currículos nacionais das diversas
modalidades e níveis de ensino é o racismo. A exclusão da História Africana é
uma dentre as várias demonstrações do racismo brasileiro. Ela produz a
eliminação simbólica do africano e da história nacional.
6 - REGIÕES E
CRONOLOGIA NA HISTÓRIA AFRICANA
A História Africana apresenta uma
possibilidade de divisão para estudo em 6 grandes regiões que guardam em comum
além dos aspectos geográficos, aspectos históricos e culturais. São unidades com
características semelhantes, embora também abrangendo diversidade interna da
região quantos aos povos e culturas, mas, quando comparadas ao conjunto africano
apresentam distinções nítidas. A região de história mais antiga e mais
conhecida é a das civilizações do Rio Nilo, onde se destacam o Sudão e o Egito,
ambos com história política e econômica com mais de 5000 anos e constituindo
impérios semelhantes. Um exemplo das semelhanças é a construção de pirâmides que
Vão do Alto ao Baixo Nilo, em períodos diversos com diferentes magnitudes,
representando uma forma cultural típica de região. Nesta região o Egito é bem
mais conhecido, sendo que os Núbios, um dos povos do Sudão, tem apresentado
surpresas esplendorosas aos arqueólogos nos últimos tempos. Destacam-se nesta
região os Impérios de Kerma, Kushes, Napata e Meroes. Fixados em regiões
próximas tem importância históricas os Reinos da Etiópia. A costa Africana do
Oceano Índico constitui uma região de grande influência comercial, de trocas
intensas com os países árabes e com a Ásia. Esta região se notabiliza por um
conjunto de pequenos Reinos e Cidades Estados que foram de grande esplendor
arquitetônico e, devido a existência de uma língua comercial comum, o Suarile,
podemos denominar de Região Suarile. A terceira região importante no
Continente Africano é constituída pelo Conjunto Zimbarbue e África do Sul.
Embora diferente da região Suarile litorânea é uma zona de intenso contato com o
litoral. Zimbabue, devido a importância e antigüidade das ruínas e da extensão
da civilização aí construída no passado, constitui pôr si só uma região de
importância na história africana. Na mesma região do Zimbabue entre 1400 e 1800
surge o Reino do Monomotapa. Na África do Suiapenas, reinos relativamente
recentes têm destaques históricos, sobretudo pelo processo de resistência às
invasões européias, como é o caso dos Zulus. O quarto conjunto está ao Sul do
Rio Congo, numa extensa região entre o Atlântico e os lagos Vitória e Tanganica.
De influência cultural Bantu se desenvolveu entre os séculos 14 e 15 um conjunto
de Reinos onde se destacam o Congo, Lunda e Luba. As civilizações africanas
de grande riqueza econômica e cultural formam um conjunto que geograficamente se
estendem do Atlântico atravessando o sistema fluvial do Rio Níger e cobrindo os
afluentes do lago Chade. Esta quinta região do Vale do Niger, assim como a do
Vale do Nilo, constituem as regiões de maior importância histórica no continente
devido aos longos períodos de continuidade histórica e a quantidade de
conhecimentos que se tem sobre elas. Fazem parte da história da região as
civilizações Nok, os Impérios de Gana, Malé e Songai. A sexta região é de
predominância de povos Berberes e se estende através do Deserto de Saara e
bordas do Mediterrâneo. É, sobretudo, uma região marcada por invasões
externas. A ligação entre estas diversas regiões e sua integração econômica
pode ser trabalhada e compreendida a partir das rotas de caravanas milenares ou
da história da expansão da tecnologia do ferro no continente africano. Tanto as
caravanas comerciais como as rotas de expansão da tecnologia do ferro cobrem
todo o território africano, indicando não apenas a presença de populações em
estágios civilizatórios importantes em todo continente, como também, a
existência de uma intensa integração econômica e cultural entre estes
povos. Abaixo, apresento uma possível cronologia dos principais fatos da
História Africana anterior a presença nociva e desastrosa do europeu naquele
continente. Nesta cronologia, destaco o fato de que os Europeus, através dos
portugueses gastaram mais de um século para dominar algumas regiões na África e
que a colonização européia levou mais de 300 anos para se consolidar. Este
período é marcado pela resistência, vitórias e derrotas dos diversos Estados
Africanos, em diversas frentes de combate contra as diferentes invasões
européias. Estas dinâmicas de longa duração precisam ser compreendidas para não
parecer que o predomínio europeu acontece num ato mágico e repentino, como
geralmente e superficialmente é apresentado.
A CRONOLOGIA DA HISTÓRIA
AFRICANA PODE TER A SEGUINTE COMPOSIÇÃO: 1 - Aparecimento do Homo Sapiens na
África - 10.000 AC 2 - Agricultura e criação no Vale do Nilo - 5.000 AC 3
- Os Faraós unificam o Estado Egípcio - 3.100 AC 4 - O Estado Kerma governa a
Antiga Núbia no Sudão 2.250 AC 5 - As dinastias Egípcias colonizam o Núbia -
1.570 AC 6 - Os Estados Kushes e Napatos se estabelecem no Sudão - 1.100 a
500 AC 7 - Fenícios fundaram a Capital em Cartago - 814 AC 8 - Os Estados
Kushes da Núbia governam o Egito - 760 AC 9 - A tecnologia do Ferro é
introduzido no Egito pelos invasores Assírios - 500 AC 10 - Reinos Núbios -
400 AC 11 - Civilização Nok na África Ocidental - 450 AC 12 - Os Gregos
invadem o Egito - 332 AC 13 - Os Romanos invadem o Egito 40 - AC 14 -
Início do esplendor dos Reinos Axum na África Oriental - 0 15 - Expansão
Islâmica no Norte Africano - 639 16 - Data aproximada da construção do
Zimbabue - 700 17 - Ocupação de Gana pelos Almoravides - 1.076 18 -
Fundação do Império Monomotapa na África Austral. - 1.200 19 - Início do
Império do Mali - 1.235 20 - Fundação do Reino do Congo - 1.240 21 -
Início do Império Songai - 1.400 22 - Os Portugueses vencem os Mouros e tomam
Ceuta no Norte Africano - 1.415 23 - Fundação do Reino Luba na região do Rio
Congo - 1.420 24 - A presença constante de mercantes portugueses no Rio
Senegal - 1.445 25 - Estabelecimento do tratado comercial entre Reinos da
África Ocidental e os Portugueses - 1.456 26 - Tratado de Alcáçovas entre
Espanhóis e Portugueses que permitem aos Portugueses a introdução de
escravizados Africanos na Espanha - 1.475. 27 - Chegada dos Portugueses ao
Congo - 1.484 28 - Conversão do Rei do Congo ao Catolicismo - 1.491 (o
Catolicismo já havia penetrado na Etiópia 400 anos antes) 29 - Destruição do
Império Songai - 1.591 30 - Portugueses invadem Angola transformando o Reino
em Colônia - 1.575. 31 - O Reino do Congo é dominado pelos Portugueses -
1.630 32 - Chegada dos Ingleses como invasores e colonizadores na África do
Sul - 1.795. 33 - Início das Campanhas Militares de Chaka-Zulu - 1.808 34
- Consolidação do Domínio Europeu na África - 1.884-1.885.
7 -
CONCLUSÃO Num livreto chamado Cotidiano que completei em 1992 e nenhuma das
27 editoras que enviei teve a publicação cogitada, tem uma frase que conclui
fortemente este texto. "A África é do outro lado da rua e nos falta coragem para
atravessá-la". A presença africana no cotidiano histórico e na cultura
brasileira é imensa e nós temos limitações de compreendê-la devido as ausências
de História Africana nas escolas, universidades e movimentos políticos. Mas a
gravidade é maior, pois compõe parte da estrutura racista assimilada e
introjetada pela população negra que ficou com medo da própria imagem não
reivindicando o direito à nossa própria história. No mesmo texto Cotidiano
digo, "Meu bisavô na África foi arquiteto, meu avô construtor no Brasil colônia
e hoje eu moro debaixo da ponte". A nossa pobreza foi conseqüência de uma
dominação escravista e racista que nos empobreceu sistematicamente nos dois
lados do Atlântico. Para uma excelente introdução à História Africana convém
recomendar aqui o livro de Walter Rodney - Como o Europeu subdesenvolveu a
África -, historiador nascido na Guyana. A nossa consciência histórica é a chave
para nossa participação cidadã no país. Diariamente agradeço aos meus
ancestrais, à meus pais e amigos de meus pais pela riqueza histórica que legaram
e me transmitiram, isto me fez viver bem e em equilíbrio, não me deixando vencer
pelo racismo. A tristeza é que outros negros não tiveram a oportunidade que eu
tive, por isto vivem subjulgados e no desespero. Estas são as conclusões únicas
que tenho sobre a urgência de introdução da história Africana no
Brasil.
8 - BIBLIOGRAFIA APPIAH, Kwame. Na Casa do Meu Pai. A África
na Filosofia da Cultura. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 1997. BONNET,
Ch. Kerma lâ?Tun de plus vieux royaumes dâ?TÁfrique. Archeologia, 258, juin 1990
pp. 32-40 CUNHA JR, Henrique. África e Diáspora Africana - Mimeógrafado.
Curso sobre cidadania e relações raciais. ABREVIDA - Prefeitura de São Paulo -
1991. _________________. Africanidades Brasileiras e Afrodescendências.
Mimeógrafo. Teresina-Pi, 1996. _________________. African Technology in
the History. Formation of Colonial Brazil. Apresentado na Conferência da ASA -
African Studies Association. Boston. EUA. 1992 DIOP, Cheik. Nations Negres et
Culture. Presence Africaine - Paris. 1955. FAGE, J. A. History of West África
- Cambridge University Press New York. 1974. KI.ZERBO, Joseph. História da
África Negra. Lisboa: Biblioteca Universitária, 14. OLIVER, R.. A Experiência
Africana. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1994. PALERMO, Miguel. DUPEY,
Ana - Arte Popular Africana. Buenos Aires: Centro Editor da América Latina S.A.,
1977. RODNEY, Walter. Como o Europeu Subdesenvolveu a África.
Portugal-Lisboa: Editora Seara Nova., 1975 THEROND, Roger. (Org.) Soud an
Royaunes sur le Nil. Paris Mactch el Institut du Monde Arabe - Roteiro da
Exposição - Paris. 1997. DAINES, John / Malek, Jaromir. O Mundo Egípcio.
Volume I. Edições del Prado - 1996 - Edição Portuguesa.
Henrique Cunha
Junior Nasceu no Bexiga, em São Paulo, e passou sua
infância no tradicional bairro do Ipiranga. Dirigiu grupos de
teatro amador no movimento negro na década de 1970 e foi membro do Grupo Congada
de São Carlos. Participou da fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores
Negros, tendo sido seu primeiro presidente.
Honerê Al-amin Oadq Posse
Hausa - minha familia, minha base! MNU De onde sou centralizado
politicamente! ENJUNE Um objetivo coletivo a ser alcançado!
skipe -
Honerê msn - oadq@hotmail.com
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